O telefone morreu

Por Fredi Jon

O telefone morreu. Não houve velório, nem missa de sétimo dia. Talvez porque ninguém tenha percebido exatamente quando.

Esse pensamento me ocorreu ao voltar de uma serenata. Eu estava com vontade de ligar para um amigo e contar um fato tão divertido que, por telefone, provavelmente renderia boas risadas. Era daqueles acontecimentos que precisam ser contados com entusiasmo, com pausa, com exagero, com aquela interrupção inevitável de quem começa a rir antes mesmo de terminar a história.

Peguei o celular. Parei. Pensei: “Será que ele pode atender?”

Depois: “Será que vai achar estranho eu ligar?” E finalmente: “Melhor mandar uma mensagem.” Foi aí que percebi: o telefone morreu.

Não houve velório. Apenas uma lenta substituição.

Primeiro veio o celular. Depois o WhatsApp. Vieram os grupos, os áudios, as chamadas de vídeo, as redes sociais, os emojis, os GIFs, os “kkkk”, os “rs”, os “blz” e uma infinidade de recursos criados para facilitar a comunicação.

E conseguimos. Facilitamos tanto que quase ninguém mais conversa.

Hoje temos plataformas para falar com qualquer pessoa, a qualquer hora, em qualquer lugar. Só não temos mais assunto, ou, talvez, coragem para dizer o que realmente gostaríamos de dizer.

Amigos que antes passavam horas conversando agora mandam um “e aí?” e esperam que o outro faça todo o trabalho emocional da amizade. “Precisamos marcar alguma coisa” virou uma promessa diplomática, dessas que atravessam meses sem jamais encontrar uma data.

E existe a nova modalidade: o WhatsApp sem pontuação.

“oi tudo bem então queria te falar uma coisa mas não sei se vc vai entender mas enfim depois te explico”

Não há ponto. Não há vírgula. Não há respiração. A frase parece estar embriagada.

A pontuação também morreu.

E os áudios?

A pessoa manda quatro minutos e você pensa: “Ouço agora ou deixo para quando tiver coragem?”

Você ouve dois dias depois, enquanto dirige, trabalha ou lava uma louça. E pronto: a história chegou, mas a emoção ficou pelo caminho.

Porque conversa não é apenas palavra, é pausa, é silêncio, é olhar, é o riso que interrompe a frase. É aquela respiração antes de contar alguma coisa importante. É o tom que transforma um “está tudo bem” em “não está tudo bem coisa nenhuma”.

A tecnologia conseguiu levar nossa voz para o outro lado do mundo, mas nunca nos sentimos tão vazios e solitários.

Talvez por isso tanta gente esteja falando tanto e se sentindo tão pouco ouvida.

Temos grupos para família, amigos, trabalho, condomínio, futebol, escola e até para decidir onde será o próximo encontro que provavelmente nunca acontecerá.

Estamos todos conectados,e, curiosamente, cada vez mais distantes.

Naquela noite, voltando da serenata, eu só queria contar uma história engraçada para um amigo. Uma coisa simples. Daquelas que não precisam de edição, legenda ou emoji.

Só precisava de uma voz do outro lado. Talvez o telefone não tenha morrido. Talvez nós é que tenhamos esquecido para que ele servia.

Para ligar sem motivo, para perguntar “como você está?” e realmente esperar a resposta.

Para rir de uma bobagem, para ouvir alguém respirar do outro lado.

E, principalmente, para descobrir que algumas histórias ficam muito melhores quando não cabem numa mensagem.

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